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Cincia e pesquisa
Ambas as palavras  cincia e pesquisa  no devem ser novas em seu vocabulrio. No  raro
encontrar expresses, no dia-a-dia, tais como a cincia de estudar, pesquisas de campo,
pesquisas de mercado, apenas para citar algumas. Embora o emprego dessas palavras em tais
expresses tenha, em ltima anlise, denominadores comuns com o seu sentido mais tcnico, ele
est longe de ter o significado completo que os cientistas pretendem lhe dar. 
Em Psicologia (e em outras cincias muito mais antigas) essas 
palavras assumem um significado muito mais completo, que tentaremos explicitar. 
Fazer pesquisa  uma das etapas do fazer cincia. 
Mas, o que vem a ser cincia? 
A cincia , antes de tudo, um empreendimento humano complexo. So vrias as suas definies e 
descries, refletindo as vrias 
maneiras de se entender cincia. 
De um modo geral, concebe-se o fazer cincia (ou o que o cientista faz) como produzir 
conhecimentos no sentido de chegar a novas descobertas. Para tanto,  necessrio observar, realizar 
experincias, construir instrumentos, descobrir leis, estabelecer previses, procurar explicaes, 
elaborar teorias, conceitos, submeter hipteses a testes, escrever e publicar resultados e tentar, 
finalmente, que a tecnologia aplique suas descobertas. No entanto, cada cientista poder dar maior 
nfase a um determinado aspecto em detrimento dos demais. E estes diferentes enfoques podero 
refletir suas concepes do que seja cincia (Lacey, 1972). 
Assim, se voc imaginava a cincia como uma atividade padronizada, com todos os cientistas 
trabalhando a partir de regras semelhantes e estticas, prepare-se para uma realidade diferente: por 
ser 
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uma atividade  um estar fazendo 1  e por ser humana, ela est em constante mudana no decorrer da 
histria e reflete as inmeras diferenas entre aqueles que a pensam e a realizam. 
Neste momento, estamos querendo mostrar os traos mais imprtantes da cincia: como um processo de 
produo 1e conhecimento realizado por homens (que so tambm produtos d um meio cultural e psicolgico), 
ela est em constante interao com a sociedade, sendo determinada por e determinando a histria poltica e 
econmica do momento social em que se insere. Alm disso, mantm um estreito contato com a filosofia, na 
medida em que os vrios modelos de pensamentos difundidos por famosos filsofos influenciaram de maneira 
marcante as vrias formas de se proceder em cincia. 
Vejamos, de maneira breve, alguns exemplos destas interaes da cincia com a histria (e, conseqentemente, 
com os aspectos econmicos e polticos) e com a filosofia. 
1 . 1. A interao cincia e histria 
Quando a preocupao era basicamente com a satisfao de necessidades prticas imediatas, tais como 
alimentao e luta pela sobrevivncia, era fundamental que o homem soubesse trabalhar com os materiais e 
transform-los em instrumentos. Foi desses processos de transformao de materiais em ferramentas que 
nasceram, primeiro, as tcnicas e, depois, a cincia. Tcnica  o processo de fazer uma dada coisa; cincia  a 
maneira de compreender como se faz uma coisa de forma a poder faz-la melhor (Bernal, 1961). 
J nos sculos VI e VII, na Grcia, vamos encontrar a propagao dos inventos e descobertas, tanto pelo 
comrcio, como pelo surgimento de tericos que tinham por funo social refletir a respeito das mquinas e 
outras descobertas feitas (Pinsky, 1975). V-se, aqui, emergirem caractersticas de cincia e j  clara a sua 
interao com a estrutura social. O ferro, por exemplo, descoberto nessa poca, por ser material mais comum e 
barato, ampliou de maneira revolucionria a produo de instrumentos de trabalho e, em conseqncia, a 
produo de alimentos e bens. Com isto provocou grande desenvolvimento do comrcio que, por sua vez, 
exigiu um emprego cada vez mais intenso de mo-de-obra escrava (Pinsky, 1975). 
Expresso empregada no programa do curso de Metodologia Cientfica da PUC-SP, em 1979. 
Mais adiante no tempo, na Idade Mdia, a Fsica e a Astronomia nos apresentam o exemplo de Galileu Galilei, e 
os grandes obstculos que enfrentou ao lanar ao mundo a descoberta de que a Terra no era o centro do 
Universo. Ela ocasionou grande revoluo na compreenso humana do Universo, no posicionamento e na 
finalidade do homem dentro dele. At ento o homem era compreendido se undo os ditames da Igreja, que o 
concebia como centro do Universo e fora do alcance das leis naturais, sujeito apenas ao governo de Deus e  
sua prpria vontade. 
Nessa poca, o objetivo ltimo da cincia era o fortalecimento da religio (Bernal, 1961) e, portanto, no 
interessavam descobertas que fossem contra os preceitos religiosos vigentes. 
Transportando-nos para a Psicologia e cincias do homem em geral, verificamos, claramente, esta relao entre 
a cincia e a histria; por exemplo, a santidade do ser humano, mantida pela instituio religiosa da Idade 
Mdia,  apontada como uma das razes para explicar o aparecimento tardio de uma cincia formal que 
estudasse o comportamento humano. 
O ser humano, visto como criatura dotada de alma, com livre- arbtrio, no podia ser objeto de investigao 
cientfica. 
Mas no  nosso propsito fornecer-lhe um perfil completo da relao cincia e sociedade, no decorrer da 
histria.  importante apenas que voc perceba, pelos exemplos aqui apresentados, a interdependncia entre a 
cincia e outras atividades do universo humano, uma vez que estaremos falando de uma cincia  a Psicologia , 
e  prudente que, desde j, voc a veja como um corpo de conhecimentos socialmente determinado e 
determinador. 
1 .2. A interao cincia e filosofia 
Para usar uma expresso comum, vimos at agora que a cincia no surge do nada, que ela sempre emerge 
em contextos sociais especficos e com caractersticas determinadas. Nesses contextos sociais, variveis no 
tempo e no espao, alm de eventos de natureza econmica, poltica etc., ocorreram tambm, desde o sculo VI 
a.C., com Tales, um filsofo grego (Hillix e Marx, 1963), grandes debates entre os homens, seres pensantes 
sobre a sua existncia e os eventos que os cercavam. Esses pensamentos, na medida em que recebiam 
adeptos, discpulos e divulgadores, passaram a se constituir em modelos de conhecimento, norteando as 
maneiras de se fazer cincia. 
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E desde h muito tempo  427 a.C. com Plato, e 460 a.C. com Demcrito  tem existido uma luta entre duas 
tendncias principais, que mantm, at hoje, representantes entre ns: uma formal, o Idealismo, e a outra 
prtica, o Materialismo (Bernal, 1961). 
A tendncia idealista, cujo defensor mais convincente foi Plato, deu nfase ao mundo das idias, que ele 
considerava estar, de algum modo, acima e alm do mundo real. Eram propensos a suspeitar da prova dos 
sentidos como fonte de verdade, opondo-se ao estudo da realidade externa ao homem. O objetivo era estudar 
as idias sem relao com o real, com o concreto. Essa tendncia veio a influenciar Ren Descartes (1596-1650), 
considerado o pai da psicologia moderna (Keller, 1974), que considerava a mente como a parte que pensa, 
cuja principal sede estava na cabea, e sem nenhuma possibilidade de ocupar espao fsico. O corpo, por 
sua vez, era uma substncia extensa, mecnica e obediente a todas as leis da natureza inanimada. 
O ponto de vista materialista, em parte devido  sua natureza prtica, no encontrou durante muitos sculos 
grande apoio nos meios cultos (Bernal, 1961). O modelo materialista  basicamente uma filosofia sobre os 
objetos e seus movimentos; uma explicao da natureza e da sociedade a partir da compreenso de suas leis 
naturais e de sua observao. Essa maneira de ver o m:rndo influenciou todo um movimento denominado 
empirismo, que concebia a cincia como dependente do uso de explicaes que se referiam ao observvel, ao 
perceptvel pelo mundo dos sentidos. Foi esse movimento o responsvel pelo nascimento da psicologia 
experimental, que veremos mais adiante. 
Relacionando este movimento filosfico com acontecimentos sociais e econmicos, historiadores relatam que 
uma vez desencadeada a Revoluo Industrial, a cincia tornou-se eminentemente materialista, buscando o 
estudo de meios mais eficientes de transporte, comunicao e produo macia. 
Com esta breve exposio de aspectos histrico-filosficos, pretendemos ter podido lhe apresentar dois 
importantes traos da cincia, na busca de sua descrio: ser uma atividade humana e social e, portanto, em 
ntima interao com os fenmenos histricos e movimentos filosficos, criados e vividos pelos homens. 
Resta, ainda, salientar um outro aspecto da cincia, decorrente desses anteriores: a responsabilidade social do 
cientista. 
Se voc refletir sobre os tpicos anteriores  a interao entre cincia e sociedade e com os movimentos 
filosficos  ficar automtica a concluso de que a cincia no  neutra socialmente e no precisaremos dar 
novos exemplos. Aqueles que mostraram a altera- 
o de estruturas sociais a partir de descobertas cientficas bastam para deixar claras as conseqncias sociais 
do ato de fazer cincia.  a prpria dimenso humana da cincia, a sua existncia em contextos sociais e 
polticos que a tornam assim: completamente comprometida com o meio 
O financiamento de projetos cientficos pelo governo, destinados  cincia blica e  indstria, por exemplo, o 
envolvimento de cientistas alemes no processo blico, as exploses de Hiroxima e Nagasaki demonstram, 
definitivamente, que para a sociedade no h dissociao entre cincia e conseqncias de suas descobertas. 
Como apontam Rose e Rose (1971), existe uma poltica cientfica, e ela consiste em escolher o tipo de cincia 
que deve ser feita. As escolhas  sejam feitas por quem for  por definio no escapam a critrios ideolgicos 
ou de valor; implicam a aceitao de determinadas orientaes para a cincia, com excluso de outras; abrir 
alguns caminhos significa fechar outros. Enviar um homem  Lua significa deixar de fazer outro tipo de coisas. 
Essas escolh.s so inerentes a qualquer sistema. E como no so, evidentemente, escolhas neutras, a atividade 
cientfica a que do origem no pode ser neutra. 
1 .3. A relao pesquisa e cincia 
Para muitos, cincia e pesquisa so vistas como sinnimos, ou, ento, como atividades inseparveis: s se faz 
cincia mediante a realizao de pesquisas. Outros consideram a pesquisa como uma das etapas do fazer 
cincia. 
Mas essas relaes s ficaro mais claras se apresentarmos a voc o que se entende por pesquisa. 
Vista como uma classe geral de investigaes controladas (Ackoff, 1975), a pesquisa  o meio que os 
cientistas tm para verificar suas hipteses, testar suas idias, suas teorias, observar os fatos. Na pgina 1 
listamos uma srie de aes que um cientista realiza e nessa listagem est, entre outras, o submeter suas 
hipteses a testes e inventar teorias. Fazer pesquisa , em linhas gerais, realizar a primeira dessas duas 
aes. A segunda, embora considerada uma atividade cientfica, no se constitui, ainda, em pesquisa. 
Falamos tambm que so as nfases diferentes que cientistas do a essas aes que caracterizam diferentes 
concepes de ciencia. Do ponto de vista de alguns autores, o proposito da ciencia e_a teoria (Kerlinger, 
1980), e a pesquisa, ento, tem apenas a funao 
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de servir de teste para a mesma. Para outros, a finalidade ltima da cincia  prever a ocorrncia de eventos e poder 
interferir, controlar a ocorrncia desses eventos. Nesse sentido, a pesquisa  fundamental, pois sua caracterstica de ir 
diretamente de encontro aos fatos, observando-os de uma maneira sistemtica, medindo-os, analisando-os e at alterando-
os para verificar hipteses,  que vai tornar possvel prever e controlar os eventos que ela estuda. A teoria, neste 
contexto, apresenta a funo de reunir os dados coletados com a pesquisa, relacion-los e atribuir-lhes um significado mais 
amplo (Hempel, 1974). 
Parece-nos, no entanto, que, qualquer que seja a funo da teoria, 2 as afirmaes nela contidas devero ser sempre 
submetidas  observao e, portanto, testadas sob a forma de pesquisa. 
At aqui,  importante voc notar que no demos um conceito de pesquisa; nosso propsito  apenas localiz-la dentro do 
contexto de cincia. Apontamos somente seu trao mais forte e mais geral  o fato de ela ser uma investigao pela 
observao dos fatos. Como, no entanto, observar fatos no  uma caracterstica exclusiva da cincia, falta, aihda, 
caracterizar o que  uma pesquisa cientfica e como ela ocorre em Psicologia. Todo o restante do livro ser dedicado a 
essa agradvel tarefa. 
1 .4. Cincia e pesquisa em Psicologia 
O processo pra se considerar a Psicologia como uma cincia, ou seja, como aquela rea do conhecimento que investiga o 
comportamento humano, criando teorias a seu respeito e testando com a observao, foi extremamente moroso. Enquanto o 
homem era considerado sacrossanto, dotado de livre-arbtrio e inabalvel pelo mundo natural, no havia atmosfera para o 
florescimento de uma cincia do homem (Marx e Hillix, 1963). 
Para muitos, foi Descartes (1596-1650) que iniciou uma corrente que favoreceu a pesquisa psicolgica ou, pelo menos, 
humana.  apenas a partir do momento que se considera o comportamento do homem sujeito a regularidades, a leis do 
mundo natural que se 
2 o conceito de teoria ficar mais claro adiante. No entanto, por ora, entendemos teoria de uma maneira geral, como uma 
tentativa de explicao ampla de toda uma classe de eventos (Azanh, 1958), que se apresenta sob a forma de um corpo de 
conhecimentos relacionados. 
Entende-se lei como uma relao entre fenmenos que foi verificada e testada pela observao, ou seja, empiricamente. 
pode investig-lo cientificamente, pois ele se torna acessvel, cm uma existncia concreta, passvel de observao. 
Descartes, denominado o pai da Psicologia Moderna (Keller, 1974), considerou o homem como uma mquina, cujos 
movimentos e conutas so previsveis se soubermos o que entra nela. Deixou  sbio, no entanto, o livre-arbtrio do 
homem ao atribuir-lhe uma alma, que era livre e decidia as aes do corpo. Separava, portanto, a mente do corpo, e este seu 
ponto de vista permitiu, tambm, o acesso da investigao cientfica aos animais, que Descartes considerava corpos sem 
alma. 
A partir de Descartes, a Psicologia se aproxima gradualmente da pesquisa e da teorizao contemporneas. Atravs das 
contribuies de muitos homens, tais como John Locke (1639-1704), Berkeley (1685-1753), Hume (1711-1776), 
fenmenos de grande interesse para a Psicologia, at hoje, foram estudados: a origem das idias, a distino entre sensaes 
e idias, a elaborao do conceito de associao, de causalidade e vrias tentativas de respostas  questo mente-
corpo. Poderamos dizer que, at aqui, havia inmeras teorizaes sobre os processos humanos e algumas tentativas de 
testar essas teorizaes, de pesquisar. 
A cincia do homem havia, durante trs sculos, reunido um rico material para pesquisas. 
No entanto,  apenas em 1879 que temos um grande marco na histria da Psicologia como cincia e pesquisa. Wilhelm 
Wundt (1832-1920) estabelece o primeiro laboratrio psicolgico do mundo. Embora formado em Medicina, ele era, 
fundamentalmente, um psiclogo. 
Wundt acreditava que a maneira mais simples de se estudar a mente era atravs do estudo direto, dos eventos mentais, com 
um mtodo chamado introspeco, ou auto-observao. Com isto incorporou uma forte convico na necessidade de um 
mtodo experimental: estudar a experincia imediata, atravs de observaes controladas em condies especialmente 
arranjadas por Wundt (ou outros experimentadores) para se obter informaes claras sobre o fenmeno que ele investigava: 
a mente, ou melhor, o que as pessoas descreviam dos fenmenos que viam e sentiam. 
Tendo em vista que o experimentalismo  no sentido de submeter afirmaes tericas a testes pela observao sistemtica e 
controlada   considerado por muitos autores ( por ns tambm) como uma caracterstica importante para o 
desenvolvimento de tods as disciplinas cientficas,  compreensvel o importante papel de Wundt 
Para uma compreenso do que seja esse mtodo, ver Marx e Hillix (1973), e Foulqui e Deledalle (1977). 
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para a caracterizao da Psicologia como cincia e pesquisa e para o incio de investigaes sistemticas. 
Afora isto, diz-se que o prprio Wundt era incansvel: alm d trabalho de ensinar, administrar, editar e dirigir pesquisa, 
escreveu muitos livros sobre psicologia, dando a esta, finalmente, uma identidade clara, uma sistematizao. Nas palavras 
de Keller (1974): 
Wundt nos d a nossa primeira psicologia sistemtica; diz-nos o que a psicologia , esboa os mtodos de investigao; 
indica os problemas; classifica os resultados obtidos at ento. . .  e estabelece o padro para o futuro (op. cit., p. 21). 
Sua influncia foi tremenda. Seus alunos e seus livros divulgaram suas idias e seu trabalho em vrias partes do mundo. 
Novos laboratrios foram criados em vrias universidades, novos cursos de instruo foram oferecidos e novas revistas de 
psicologia apareceram (Kefler, 1974). 
A histria que se seguiu apresentou inmeros exemplos de atividades cientficas na Psicologia. A inteligncia humana, por 
exemplo, passou a ser medida atravs dos testes e de pesquisas que os tornassem vlidos. No sculo XX, Freud passa a 
realizar estudos mostrando que o comportamento irracional pode ser explicado, no mais em termos de demnio, mas em 
termos do funcionamento normal de aspectos da personalidade, e de muitos outros exemplos de empreendimentos de 
natureza cientfica. 
Sendo assim, parece-nos que j podemos ficar mais  vontade para apresentar-lhe a pesquisa atual em Psicologia, 
explicando o que  fazer pesquisa, com todas as suas etapas, e citando exemplos de pesquisas psicolgicas brasileiras. 
Nossos objetivos at aqui foram de mostrar que a pesquisa atual tem antecedentes histricos, que ela  a continuidade ou 
descontinuidade daquilo que homens como Wundt fizeram. E mais. Que ela se insere dentro do contexto de cincia e 
apresenta, portanto, os traos principais dessa: seu carter social, de compromisso histrico, poltico, econmico e 
ideolgico. 
No entanto, como um processo especfico, cientfico, o fazer pesquisa assume caractersticas prprias e definidas. Vamos a 
elas. 
